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  • Patrícia Segurado Nunes

Psicossomática - o corpo e a mente em relação


Sendo assim, aquilo que costumamos chamar Saúde Mental deveria chamar-se apenas Saúde… Apenas Saúde, tout court… Será a Saúde aquele sujeito. Jaime Milheiro

(in prefácio de Mais Saúde Menos Doença, livro do Professor Doutor Coimbra de Matos)



Psicossomático significa mente (psique) e corpo (soma). A integração mente/corpo ou psique/soma é a base da constituição do ser humano. Lembremo-nos da velha máxima de Juvenal (poeta romano) Mens sana in corpore sano - Mente sã em corpo são - que defende que o homem de bom juízo só pede aos céus a saúde da alma com a saúde do corpo (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Na realidade, é no equilíbrio psicossomático que se encontra a saúde e harmonia vital. Lembro-me de em ambiente hospitalar, onde me iniciei profissionalmente, ter sido colocada uma questão em reunião de equipa a propósito das hipóteses de encaminhamento de uma pessoa com patologia demencial. Seria melhor apoio ao nível neuropsicológico ou acompanhamento psicoterapêutico para o doente? Ao que um colega com mais experiência respondeu que se a ele lhe tivesse sido feito esse diagnóstico, ele ficaria bastante deprimido e que provavelmente seria melhor ambos. E assim se fez.

Claro que este exemplo, será difícil de reproduzir atualmente por várias razões que não irei aprofundar aqui e que ficarão para um futuro artigo, mas que se referem a questões de organização e políticas de saúde. No entanto, pensei nele por realçar a importância de não se clivar, de não se dividir, o corpo e a mente, a dor física e a dor mental. É neste sentido que me parece de extrema importância a valorização desta temática. Diga-me o leitor se por acaso uma dor de dentes não o deixa deprimido? Ou alguém mais deprimido não estará mais propenso a ficar fisicamente doente? Lembremo-nos do vírus que nos assombra a todos e em que as pessoas mais permeáveis são aquelas cujo sistema é ou está imuno-deprimido.

Em certa medida, a maioria das doenças são psicossomáticas pois envolvem a mente e o corpo. Apesar de inicialmente haver uma identificação e intervenção nos sinais e sintomas do corpo, os aspectos psíquicos não são facilmente visíveis e por isso são pouco valorizados. Nestes casos é comum a intervenção sair frustrada, apesar das tentativas repetidas, recorrendo à alternância entre terapêuticas medicamentosas, e mantendo-se uma repetição do sofrimento, muitas vezes, ao longo da vida, com a pessoa a se acomodar a um papel de doente, assumindo a sua condição como se de um destino se tratasse.

As manifestações corporais de sofrimento psíquico estão associadas a aspectos muito particulares, muitas vezes situações traumáticas, onde o sofrimento está muito escondido e é desconhecido até da própria pessoa.

Na Psicanálise este tipo de sofrimento é comum chegar-nos aos consultórios, onde as pessoas revelam um grau de sofrimento tão intenso, que é difícil de ser pensado, trazido até à consciência. É nesta impossibilidade que surge a manifestação física, sinal corporal de angústia ligado a sentimentos, emoções e comportamentos surgidos da e na relação com os outros, nomeadamente aspetos familiares e relacionais mas também sociais, como a situação de catástrofe que atravessamos.

É, pois, na segurança da relação terapêutica que se torna visível a possibilidade de transformação da angústia e do sofrimento em pensamento e em sentimento.

Partindo da frase de Descartes - Penso, logo Existo - acrescentaria Existo, porque Penso, mas essencialmente porque Sinto.

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