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  • Patrícia Segurado Nunes

Relações Familiares e Heranças Não-ditas




Todas as partes do organismo formam um círculo.

Portanto, toda e qualquer parte é um princípio e um fim

Hipócrates



Na maior parte das sociedades a família é fundamentalmente a instituição de transmissão de valores para as gerações seguintes e assegura o seu desenvolvimento físico e emocional. A família é, usualmente, movida por uma preocupação profunda, quer pelo bem-estar individual de cada membro, quer pelo legado familiar (Kets de Vries, Carlock, Florent-Treacy, 2009). Idealmente, é o grupo de pessoas com quem estamos mais próximos, com os quais nos sentimos mais confortável, por quem temos um maior amor e profunda ligação. Idealmente também, uma pessoa sabe que pode sempre contar com a sua família, compartilhar os seus pensamentos e sentimentos e recorrer a eles para o apoio.

Naturalmente, a realidade de qualquer família não é nada como o ideal e não há tal coisa como uma família perfeita. Cada família é única, com sua própria combinação de características, qualidades, dificuldades e problemas que existem em todas. O que pode variar é a intensidade e o modo como conseguem lidar ou não com estes fatores.

Se vivem juntos na mesma casa ou não (mas especialmente se vivem juntos) a dinâmica da família interfere em muito com o funcionamento de cada membro da família e até mesmo da família mais extensa. Quando uma família tem um conflito isso afeta toda a família e pode levar a dificuldades individuais duradouras, como depressão, ansiedade, dependências, dificuldades relacionais e sociais, problemas de saúde física e até patologias mentais mais graves.

Se por um lado cada elemento influencia o todo familiar com as suas características, acima de tudo é a família que influencia o indivíduo no seu desenvolvimento. É como se cada pessoa antes de o ser já o era. Quando nasce um bebé, para além de um novo elemento cuja chegada provoca uma mudança na dinâmica da família, é também o recetáculo de desejos, fantasias e expectativas familiares. Por exemplo, antes do bebé nascer é comum os pais relatarem sonhos sobre como será o seu bebé ou fantasiarem sobre o que irá ser no futuro quando crescer ou com quem ele é parecido.

Assim sendo, alguém que nasce numa determinada família herda uma série de projecções das experiências familiares, não só dos próprios pais mas também de outros familiares, da história familiar e do próprio contexto social e cultural.

Para além da herança genética, mais visível por ser observável fisicamente, também as características individuais, do grupo e a forma de relação que se desenvolve são herdadas. Quantos pais a dada altura do crescimento dos seus filhos pensarem estar a repetir comportamentos dos seus próprios pais, quando enquanto filhos os criticavam e juravam a pés juntos nunca fazer tal coisa?

A verdade é que a transmissão de sentimentos, emoções, experiências é feita sem que as famílias se dêem conta na maior parte dos casos, nomeadamente quando se refere a situações traumáticas que se passaram e que foram silenciadas ou esquecidas numa geração passada, como forma de defesa para o sofrimento causado, mas que se manifestam mais tarde de forma mais intensa e pesada. Estas situações são passadas inconscientemente, por vezes, através de acções, e que trazem um peso para o indivíduo e para família. Vejamos o exemplo de uma barragem que acumula a água de um rio, numa tentativa de salvaguardar necessidade futuras. Mas se a barragem não foi bem construída ou foi construída com alicerces frágeis, pois foi construída à pressa ou com materiais menos eficazes, caso ocorra uma chuva mais intensa, esta pode rebentar e causar uma inundação. Esta pode ser uma analogia com o que acontece numa família.

Na maioria dos casos surge alguém que se evidencia como o problemático, no entanto, este problema é sintoma das relações familiares que não é visível e está “mascarado” pelas dificuldades daquele elemento, que muitas vezes surge um pouco como depositário da problemática familiar.

No caso das crianças é muito evidente, após algum trabalho de intervenção, que a maior parte das vezes o sintoma da criança é produzido pela dinâmica familiar, o que inclui aspetos do relacionamento dos pais, avós, irmão e outras pessoas da família. Este facto não é o caso de culpabilizar a família, até porque, como já referi anteriormente, são situações não conscientes. Já nos primórdios da terapia familiar, o investigador Ackerman (1969) afirmou que, muitas vezes, a verdadeira natureza do conflito familiar é negada, deslocada ou projetada noutros laços familiares, como a relação pai(s)-filho(s).

No entanto, as dificuldades familiares também se podem tornar uma força. Nenhuma pessoa é culpada ou responsável pelos problemas da família, e embora uma pessoa, possa manifestar ou evidenciar mais sintomas, é necessário que toda a família trabalhe e coopere para que a estabilidade seja encontrada. Na Psicanálise Familiar, e apesar desta cooperação ser por vezes um desafio, o espaço terapêutico promove uma uma grande oportunidade para fortalecer os laços familiares e as interações, através da transformação das heranças e legados geracionais, promovendo o surgimento de uma nova vida familiar, mais liberta das heranças psicopatológicas.



Bibliografia:

Ackerman, N., 1969. Psicoterapia de la família neurótica. Buenos Aires: Paidós.

Kets de Vries, M., Carlock, R. & Florent-Treacy, E., 2009. A empresa familiar no divã: uma perspectiva psicológica. Porto Alegre: Bookman.

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